
OIT divulga perfil de trabalho escravo
no Brasil

A Organização Internacional do Trabalho
(OIT) no Brasil divulgou, na terça-feira (25/10),
uma pesquisa intitulada Perfil dos Principais Atores
Envolvidos no Trabalho Escravo Rural no Brasil. Apesar
do estudo não indicar uma amostra representativa,
ele indica que país avançou no combate
ao trabalho escravo nos últimos anos. No entanto,
os pesquisadores destacam que ainda existem fazendas
com seguranças armados que ameaçam
seus trabalhadores. O estudo ressalta que o cerceamente
de liberdade desses trabalhadores ocorre também
pela apreensão de documentos, isolamento geográfico
das propriedades e imposição de dívidas
aos trabalhadores que se veem obrigados a comprar
até botinas para trabalhar.
Apresentado
no I Encontro Nacional das Comissões
Estaduais para a Erradicação do Trabalho
Escravo no Brasil, em Cuiabá, o estudo traça
o perfil da escravidão contemporânea,
que envolve situações de miséria
e de vulnerabilidade dos trabalhadores, além
da falta de oportunidades de trabalho decente. São
situações análogadas à escravidão,
exploradas pelas relações de poder
entre trabalhadores, recrutadores e empregadores.
Para traçar esse perfil, os pesquisadores
do Grupo de Estudo e Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo
da Universidade Federal do Rio (GPTEC/UFRJ) acompanharam
o trabalho dos Grupos Especiais de Fiscalização
Móveis (GEFM) em dez fazendas no país.
A
maioria dos empregados resgatados foram encontrados
em situação que se enquadra no artigo
149, Código Penal, de exploração
de trabalho escravo. Além disso, os recrutadores
desse tipo de mão-de-obra, conhecidos como
gatos, aliciavam trabalhadores com promessas ludibriosas
sem respeito à legislação trabalhista.
Foram entrevistados 121 trabalhadores resgatados
de fazendas localizadas no Pará, Mato Grosso,
Bahia e Goiás, regiões de maior incidência
de trabalho análogo ao escravo no país.
Recrutamento
A maioria dos trabalhadores aceitou o serviço
movida pela necessidade de subrevivência e
com baixa escolaridade, tendo o trabalho rural temporário
a única forma possível de sustento
da família. Ao discutir como os próprios
trabalhadores entendem o trabalho escravo, 39% disseram
ser a ausência de remuneração
ou de pagamento insuficiente; 29% citaram condições
precárias de trabalho; e 25% mencionaram a
privação de liberdade. A maioria desses
trabalhadores (63%) foi recrutada em casa ou na vizinhança.
Os demais, 37% dos empregados, procuraram agências
de emprego ou seguiram diretamente para a fazenda.
De
qualquer forma, mais da metade (52%) foi contratada
diretamente
pelos gatos. Os escritórios de
contabilidade aparecem como responsáveis pela
contratação de 15% dos empregados.
Das dez fazendas que os pesquisadores acompanharam
as fiscalizações, seis não haviam
registrado os trabalhadores.
A
maioria desses trabalhadores viviam em condições
degradantes, alojados em barracos superlotados sem
instalações sanitárias. A água
para consumo vinha de córregos da região,
sendo a mesma água para banho e preparo de
alimentos. Eles trabalhavam sem equipamentos de segurança
e em jornada exaustiva, sofrendo ainda maus tratos.
A remuneração citada por alguns era
de R$ 6 por dia de trabalho.
Qualquer
material de uso pessoal só era vendido
pelos gatos, por preços exorbitantes. Além
disso, os empregadores forçaram os trabalhadores
a comprar botinas, calças ou outros utensílios
de trabalho. A cobrança só contribuía
para aumentar a dívida dos trabalhadores,
que já chegavam às fazendas devendo
o valor do transporte até ali. Esses trabalhadores
declaram renda de 1,3 salários míninos
em média, mas esse valor não reflete
rigorosamente uma renda mensal.
Para
os recrutadores não havia trabalho escravo
nas fazendas e a situação dos trabalhadores
era razoável. Em contraste aos trabalhadores
com escolaridade baixa, os empregadores aparecem
como gestores de negócios com nível
superior, com formação voltada para
atividades rurais; em maioria pecuaristas. A maioria
deles não quis se manifestar nem foi encontrada
nas fazendas durante as blitzes.
A
questão econômica não é única
responsável pelo trabalho escravo no Brasil.
O estudo sugere o comportamento de deferência
e submissão dos trabalhadores aos donos de
terras moldando essa relação. E conclui
que a erradicação do trabalho escravo
no país exige ações múlplicas
de orgãos públicos, bem como da sociedade
civil, organizações de classe e entidades
de direitos humanos.
Fonte:
www.conjur.com.br
